Geopolítica

O Brasil no tabuleiro geopolítico de 2026: entre potências e escolhas difíceis

Há um paradoxo no centro da política externa brasileira contemporânea: o Brasil é, ao mesmo tempo, um dos países com maior potencial de influência global e um dos que mais hesitam em exercê-la. Com a décima maior economia do mundo, a maior floresta tropical do planeta, uma posição geográfica privilegiada e uma diáspora de mais de 4 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo, o Brasil tem todos os atributos de uma potência global. Mas a tradução desses atributos em poder efetivo tem sido, historicamente, incompleta.

Em 2026, esse paradoxo se aprofunda. O mundo está passando por uma reconfiguração geopolítica acelerada — a competição entre Estados Unidos e China se intensifica, a Europa busca autonomia estratégica, o Sul Global ganha voz, e novas coalizões emergem ao redor de questões como inteligência artificial, transição energética e governança da internet. O Brasil precisa decidir onde se posiciona nesse novo mapa.

O Brasil tem o tamanho de uma potência global, mas frequentemente age com a cautela de um país médio. Essa dissonância tem custos.

A pressão americana

A relação com os Estados Unidos é, como sempre, complexa. Washington quer o Brasil como parceiro no que chama de "ordem baseada em regras" — o sistema multilateral liberal que os EUA ajudaram a construir após a Segunda Guerra Mundial e que hoje veem ameaçado pela China e pela Rússia. Isso implica alinhamento em questões como direitos humanos, governança digital e cadeias de suprimento de tecnologia.

O Brasil, por sua vez, quer os benefícios da parceria americana — acesso a mercados, tecnologia, investimentos — sem as restrições que essa parceria implica. Quer poder continuar comprando tecnologia chinesa, mantendo relações com a Rússia e defendendo posições próprias em fóruns multilaterais. Essa equação é cada vez mais difícil de sustentar.

A parceria com a China

A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil, responsável por mais de um quarto das exportações brasileiras. A relação é estruturalmente assimétrica: o Brasil exporta commodities agrícolas e minerais, e importa manufaturados e equipamentos de alta tecnologia. Essa assimetria é uma fonte de vulnerabilidade que o Brasil tem reconhecido, mas não conseguido superar.

A presença chinesa na infraestrutura brasileira — portos, energia, telecomunicações — também cresceu significativamente na última década, gerando preocupações tanto em Washington quanto entre analistas brasileiros sobre dependência estratégica. O governo brasileiro tem buscado equilibrar esses interesses, mas a tarefa é cada vez mais difícil.

O Sul Global como oportunidade

Se há uma área onde o Brasil tem clareza estratégica, é no engajamento com o Sul Global. A presidência do G20 em 2024 e a participação ativa nos BRICS deram ao Brasil uma plataforma para articular uma agenda que reflete os interesses dos países em desenvolvimento: reforma da governança global, acesso a financiamento climático, regulação justa da inteligência artificial, e combate à desigualdade entre nações.

Essa agenda ressoa com muitos países do Sul Global, e o Brasil tem capital político para liderá-la. Mas liderança requer consistência e investimento — em diplomacia, em recursos, em credibilidade. E o Brasil tem oscilado entre momentos de protagonismo e de retraimento que minam sua capacidade de exercer influência sustentada.

As escolhas que precisam ser feitas

O Brasil não pode indefinidamente adiar as escolhas estratégicas que o novo cenário geopolítico exige. Não se trata de escolher entre os EUA e a China — essa é uma falsa dicotomia que o Brasil deve resistir. Trata-se de definir, com clareza, quais são os interesses nacionais de longo prazo e construir uma política externa que os sirva de forma consistente.

Isso requer investimento em capacidade diplomática, em inteligência estratégica, em soft power. Requer também uma conversa honesta com a sociedade brasileira sobre o que o país quer ser no mundo — uma conversa que ainda não aconteceu de forma adequada.

Marcos Cavalcante Analista de relações internacionais e professor de política externa brasileira. Colabora com a Nortesfera Digital desde 2024.