Economia política

A armadilha da renda média: por que o Brasil não consegue dar o próximo salto

O Brasil está preso. Não em uma crise aguda, mas em algo mais insidioso: uma estagnação estrutural que economistas chamam de "armadilha da renda média". O país saiu da pobreza, construiu uma classe média, desenvolveu instituições razoáveis — mas não consegue dar o próximo salto para se tornar uma economia avançada.

O PIB per capita brasileiro, em paridade de poder de compra, ficou estagnado em torno de US$ 16.000 a US$ 18.000 por mais de uma década. Países como Coreia do Sul, Taiwan e Singapura, que tinham renda similar à do Brasil nos anos 1970, hoje têm renda per capita três a quatro vezes maior. O que eles fizeram diferente?

O diagnóstico

A literatura econômica identifica alguns fatores comuns nos países que ficam presos na armadilha da renda média: baixa produtividade, educação de qualidade insuficiente, infraestrutura inadequada, ambiente de negócios desfavorável, e incapacidade de subir na cadeia de valor global — de exportar commodities para exportar produtos e serviços de maior valor agregado.

O Brasil tem todos esses problemas. A produtividade total dos fatores cresceu menos de 1% ao ano nas últimas duas décadas. O sistema educacional produz trabalhadores com qualificação insuficiente para as demandas de uma economia do conhecimento. A infraestrutura logística é cara e ineficiente. E o ambiente regulatório e tributário é tão complexo que desincentiva o investimento e a inovação.

O que pode mudar

A boa notícia é que o Brasil tem recursos e potencial para superar a armadilha. A transição energética global cria oportunidades enormes para um país com a matriz energética renovável do Brasil. A biodiversidade amazônica pode ser a base de uma bioeconomia sofisticada. O agronegócio brasileiro, já altamente produtivo, pode avançar ainda mais na cadeia de valor com processamento e tecnologia.

Mas aproveitar essas oportunidades requer investimento em educação, em ciência e tecnologia, em infraestrutura — e um ambiente institucional que permita que empresas inovadoras cresçam e compitam globalmente. Requer, acima de tudo, consistência de política econômica ao longo de décadas, independentemente de quem governa.

Silvia Barros Economista e pesquisadora de desenvolvimento econômico. Doutora pela USP, colabora com a Nortesfera Digital com análises de economia política.